Precariedade da Permanência

Friday, July 23, 2004

Mombojó é a elite demente na otimização do pop nacional

O grupo prova que Pernambuco é  voz diferenciada no Mercado Musical Pop Brasileiro

Ricardo Paiva

Até onde vai o nosso pop ? Todos que foram ou são a garotada do pop rock nacional dos anos 80,90 e do século XXI do Brasil poderiam responder. Mombojó é uma banda pernambucana dos anos 80,quando praticamente nasceram Felipe S e seus asseclas. Década onde o rock nacional que tinha espaço no mercado era um desfile telúrico-musical estritamente pop, com propostas, influências e resultados bonitos,eficientes,muito acertados melodicamente mas que não eram nem tentavam ser tão inventivos.

Corrija-se: o Mombojó começou nos anos 90,nos anos 80 nasceram e nessa época ainda não teriam idade para enriquecer consistentemente sua formação musical. O cd é do século XXI, lançamento de 2003 e trata-se do primeiro cd de músicos assumindo-se Mombojó. E essa turma do Recife apresenta cd despretensiosamente intitulado Nada de Novo. Com Mogwai, samba, Cartola, jazz, Mundo Livre S/A, Tortoise e vários outros nomes, a banda foi associada pela imprensa quando queriam citar as influências nunca detalhada ou publicamente assumidas pelos integrantes.

Sem grandes nomes na seara musical que tenham surgido desde a explosão manguebit, os olhos da entendida crítica musical brazuca deveriam agora se voltar um pouco para Felipe S. com seu vocal demente, O Rafa e sua criativa e discreta flauta, irmãos Machado, Samuel,Marcelo Camelo e Chiquinho. Começando com a demência da voz de Felipe S. em Cabidela, o cd continua com Deixe-se Acreditar, que deveria facilmente tocar nas rádios em uma indústria musical saudável e que parece que prenuncia que as letras são simples mas fortemente originais e encorpadas por uma sons muito interessantes. E em todo cd, essa demência – longe de erudito, genial mas apenas pop, frise-se - continua e se mostra bem superior à essa música limpinha e esterilizada que temos hoje em dia.

PERNAMBUCO TEM SEU LUGAR - Num feliz projeto desde a capa,até a produção,arranjos,mizagem, os dementes se beneficiam de gente que de certa forma incorporam o que Renato L. chamou de brodagem nova da cena pernambucana. Afinal, o cd é do estado, nova gente como Eddie,Bonsucesso Samba Clube,Suvaca di Prata,China, Zé Guilherme, RE:Combo, Mabuse, Coquetel Molotov, Rogê e sua  Sopa, Paulo André, Telephone Colorido perfazem um arco de amizade e relação pessoal ou profissional dos Mombojetes e se esse texto fosse menos galhofeiro e melhor assinado, a idéia de que há algo novo - mesmo que disforme – na nossa música. E pop como Mellotrons,Vamoz! e Superoutro que estão chegando aí, pouca gente faz nesse MMPB, esse Mercado Musical Pop Brasil.

Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Blitz, Ultraje a Rigor, IRA!, Lobão e outros se notabilizaram num mercado nacional às custas de senso melódico e talento para produzir hits e só em algumas oportunidades iam além do pop – Paralamas quando tentou, sempre acertou. Sem demérito nenhum, até porque se não foi um tempo de grupos geniais, as bandas acetaram jingles inesquecíveis de toda uma geração e mais tarde grupos como o próprio Paralamas e artistas como Lobão confirmaram que tinham muito mais para dizer. Não se trata de desmerecer os muitos méritos desses nomes, mas pouco se foge do pop com essas discografias dos Brock nacional nos anos 80. Fora que essas bandas são altamente superiores a quem vende muitos cd´s hoje para a nossa juventude.

Corrija-se novamente: os meninos do Mombojó são dos anos 80, pois desde cedo tem escutam música boa, conhecem de música brasileira,americana, até européia, nomes do jazz,samba, o pop puro americano e também a mpb tradicional e podem ser considerados, seja pela audição do cd ou por fontes, altamente informados musicalmente. Com o Nada de Novo no século XXI, a banda da década de 90, mas nascidos nos anos oitenta, o Mombojó cativa um ouvinte,pois é sim uma banda pop, mas sem concessões e que de nada abdica para registrar uma música que é rica e nova sim,pois transita delicada e originalmente pelo jazz,pop,rock,samba.

FELLINI E KARNAK SÃO EXCEÇÕES – Não é o caso de definir que as bandas daqui se sobressaem, pois existem coisas interessantes feitas no Rio, Minas, São Paulo, Porto Alegre e outros que se inserem no restrito clube da indústria musical brasileira. Os anos 80 passaram, todos os grandes nomes principalmente cariocas e paulistas ficaram e ainda vendem e pouco dessa geração nova que não é de Pernambuco contribui para nosso pop. Tirando gente como Karnak nos anos 90, Fellini nos anos 80 e os exemplos do manguebit e daqui, pouca música original teve espaço e lugar nesse mercado. Porém, essas ineficientes bandas novas ‘’de lá’’ que surgiram e que tocam, vendem cada vez mais com uma oportunista e fraca receita.

O maior desafio dessa geração é reativar o que se perdeu após Chico Science, Fred 04 o manguebit e seu estouro no começo dos anos 90. Como diz Lobão, que faz a Outra Coisa, sendo o patrocinador da causa do novo cd do Mombojó, fazer isso com garra mas sem almejar uma ser nova mpb nem obedecer aos cânones da bossa nova,tropicália e do tradicionalismo mpbês, pois se brasileiro e músico, já se é mpb. E numa dessas brechas na revista do El Desdichado Lobón, com o site, programa de rádio e agora festival que o pessoal do Coquetel Molotov faz, com Rogê na Sopa, na TV Universitária, no Rec Beat de Guti, nos festivais de Paulo André e de outros, é que está o sítio ativo do Mombojó e dessa gente daqui.

Com as cíclicas copulações da mídia de fora com o som de nosso estado, sobra pouco sexo para a paudurescência (apud Lobão) da galera, restam apenas pequenos orifícios vizinhos do mesmo espaço que foi violentado pelo Mundo Livre S/A, Nação Zumbi e mais recentemente Otto e Cordel de Fogo Encantado. Neles, essas bandas devem inocular o veneno pop pernambucano. Até porque conquistaram-se jornalistas de fora,apoios e talvez nem seja necessário usar o pau; mas está aí o desafio de sequenciar essa criatividade injetada por Pernambuco nos últimos anos do pop nacional.

 Pela juventude que existe ou ao menos a que a nossa televisão mostra, essa garotada é comparativamente bem mais informada e de mais refinado gosto musical. Trata-se apenas de espaço, preenchê-los é a tarefa que devem se propor ainda a Nação e Mundo Livre mas principalmente os novos do Bonsucesso, Eddie, Suvaca di Prata, Mellotrons, Vamoz!, Superoutro, China e óbvio, a cereja no bolo do pop pernambucano: o Mombojó.

Braços estendidos para uma verdade humanista

Clamor, Uma Vitória de uma Conspiração Brasileira

Ricardo Paiva

A Editora Objetiva já coloca desde o começo do ano nas livrarias Clamor, Uma Vitória de uma Conspiração Brasileira, de Samarone Lima, jornalista cearense radicado em Pernambuco que fez sua vida acadêmica como estudante na UFPE e trabalhou alguns anos lecionando na Unicap. O livro percorre todos os principais passos que marcaram a concepção, a trajetória, lutas e conquistas do movimento Clamor, que nascido em 1978, buscou desaparecidos políticos e mortos, perscrutando as dificuldades e tentando desmascarar algumas sombras nas ditaduras.

O jornalista, familiarizado com estudos sobre a América Latina, o Cone Sul e afetivamente ligado a algumas questões caras à defesa dos direitos humanos e a luta na época da ditadura, pesquisou em São Paulo as lições de humanidades presentes nesse lançamento editorial.Trabalhando em cima de arquivos da Arquidiocese de São Paulo, sob a orientação do sociólogo Sedi Hirano, esse sensível profissional que é Samarone trabalhou com pesquisas desenvolvidas para uma bolsa de mestrado na USP pela Escola de Estudos Hispânicos.

Sob o título inicial de A Penumbra Compartida, o autor certamente se viu constantemente desafiado pois cumpriria estudos e pesquisas de rigor científico que conviveriam com seu inato sentimento de revolta perante a história política das ditaduras na América e Cone Sul. Além de arquivos da Cúria Arquidiocesana em São Paulo e fontes no Brasil, A Penumbra Compartida – nome da tese de mestrado apresentada em 2000 na USP - investigou arquivos da Argentina, Chile, Uruguai. As atrocidades perpetradas no Cone Sul e as ditaduras massacrantes sobre os povos renderiam várias vertentes para o trabalho realmente de repórter que logicamente haveria de ser para além  de São Paulo e em vários livros que a pesquisa foi buscar.

O livro, indo do conhecido e covarde caso – pois contra crianças - Anatole e Vicky e da orfandade que lhes é impigida brutalmente, parte para outras ações do Clamor, registrando os recursos de que o pastor James Wright, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, a jornalista inglesa Jan Rocha - com o apoio decisivo de Dom Paulo Evaristo Arns - cimentaram para aqui e ali resolver casos ou ao menos ajudar a saber o que na época foi feito com vidas humanas.

A melhor característica dessa pesquisa foi a riqueza de fontes que Samarone se municia para falar de tudo o que cercou o movimento – ele encontra registros de ajuda de gente espalhada pela América até relatos da pouca conhecida contribuição de brasileiros juristas como Fábio Konder, José Carlos Dias, Hélio Bicudo e soma o que colhe às perspectivas que suscitassem perguntas sobre o movimento de solidariedade. Do pequeno levante que fraternalmente se formava para servir de contraponto às brutalidades das torturas,assassinatos,desaparecimentos em outros casos latinos e brasileiros.

As pequenas lutas do Clamor, pela pouca estrutura e perigo envolvido, foram heróicas e nobres, porque se não resolviam a complexa tragicomédia de erros de políticas anacrônicas e amorais da ditadura,pontuavam momentos e criavam focos de resistência e esperança. Se as violências foram desabridamente maiores que os desaperecimentos e mortes resolvidos e descobertos, a corrente de solidariedade mesmo assim fincou sua importância no tempo. É sobre os pequenos gestos humanos e solidários que se construiram grandes vitórias da democracia contra a ditadura, talvez queira ensinar o autor.

A esfera pública em Jürgen Habermas

 
A questão da esfera pública em Jürgen Habermas é tema tão central que tem-se mantido presente em sua obra, ao longo de quatro décadas. Foi o objeto de um de seus primeiros livros, Mudança Estrutural da Esfera Pública, datado de 1962. Também foi exaustivamente analisado em Direito e Democracia: entre facticidade e validade, publicado em 1992. Atualmente, depois de tantas outras preocupações, ali permanece como foco de suas considerações, como se pode constatar numa de suas mais recentes publicações, A Constelação Pós-Nacional, lançada em 1998. Sendo assim, para podermos abordar esta temática tão ampla, teremos que progredir por partes, iniciando com a tentativa de definição e delimitação desse conceito em relação a outros, seguida de uma busca de suas origens e da evolução histórica de suas funções, desde a constituição da esfera pública burguesa até os dias presentes, tal como descrito por Habermas.
Para podermos, então, definir o que o autor entende por esse conceito, devemos, em primeiro lugar, levar em conta a distinção entre a esfera do poder público e a esfera da opinião pública. Temos aqui, portanto, a diferenciação entre o Estado, enquanto poder ou setor público, detentor da propriedade pública e do poder político (que se expressa no monopólio do uso da força) e responsável pela administração da sociedade; e a própria sociedade, constituída pelos interesses privados, no interior da qual se pode identificar uma esfera da opinião pública que se contrapõe ao poder público - a esfera pública política. O setor privado, portanto, abrange tanto o campo da sociedade civil, enquanto setor de troca de mercadorias e de trabalho social, quanto a esfera pública política, definida como "esfera de pessoas privadas reunidas num público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social" (Habermas, 1984: 42).
É precisamente esta definição de um espaço público dentro do setor privado, que constitui a originalidade do conceito de esfera pública do autor, e faz com que, logo de imediato, se coloque a diferença de sua concepção de sociedade civil em relação a Hegel e à tradição liberal, que a concebia enquanto "sistema de necessidades" , e também em relação a Marx. "Hoje em dia, o termo sociedade civil não inclui mais a economia constituída através do direito privado e dirigida através do trabalho, do capital e dos mercados de bens, como ainda acontecia na época de Marx e do marxismo" (Habermas, 1997, vol. II: 99). Por ela, o autor entende o conjunto dos movimentos e organizações sociais que veiculam os conteúdos da opinião pública, a saber: “compõe-se de movimento, organizações e associações, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política. O seu núcleo institucional é formado por associações e organizações livres, não estatais e não econômicas, as quais ancoram as estruturas de comunicação da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida” (Ibidem: 99).
E é exatamente em virtude dessa sua estrutura institucional e organizacional, que a sociedade civil se distingue da própria esfera pública. As duas não devem ser confundidas do ponto de vista de sua constituição. O espaço da publicidade não pode ser visto como uma instituição, organização ou sistema, mas como uma estrutura discursiva, “uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos
comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos... A esfera pública constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado para o entendimento, a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo não com as funções, nem com os conteúdos da comunicação cotidiana” (Ibidem: 92).
Portanto, se compreendemos bem essa relação, vemos que são as instituições da sociedade civil que viabilizam a transformação dos discursos capazes de solucionar problemas, formados nas redes de comunicação da esfera pública privada, em questões de interesse geral, no quadro das esferas propriamente públicas. Ora, embora a concepção de um domínio da sociedade civil, desligado da sociedade política, seja um conceito moderno, a idéia de um espaço social de formação de uma "opinião pública" já era vivenciada, na polis grega, como o verdadeiro locus do poder e como o fundamento da democracia. Aqui cabe ressaltar que, também para Habermas, a existência de uma esfera pública politicamente ativa é essencial para a consolidação dos regimes verdadeiramente democráticos, que buscamos alcançar: “Na perspectiva de uma teoria da democracia, a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problema", ou seja, ela não pode limitar -se a percebê-los e a identificá-los, devendo, além disso, tematizá-los, problematizá-los e dramatiza-los de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados
pelo complexo parlamentar. E a capacidade de elaboração dos próprios problemas, que é limitada, tem que ser utilizada para um controle ulterior do tratamento dos problemas no âmbito do sistema político” (Ibidem: 91).
Coloca-se, dessa maneira, a necessidade de tradução das questões privadas em questões políticas, e de controle do poder público pelos organismos da sociedade civil, o que já permite vislumbrar a relação íntima e intricada que se estabelece no seu pensamento entre o público e o privado, entre a política e a sociedade. Um é o detentor legítimo do poder, porque representa a vontade da maioria, enquanto o outro é o veiculador dos problemas sociais que não possuem força representativa suficiente para serem defendidos pela classe política e, por isso mesmo, pode funcionar como defensor dos direitos das minorias e excluídos. Ambos são, portanto, fundamentais e complementares para desenvolver o jogo democrático. Entretanto, antes de avançarmos nessa direção, julgamos conveniente buscar esclarecer as origens e funções da esfera pública política moderna, que são remetidas pelo autor à esfera pública literária burguesa, que se colocará como o complemento da esfera propriamente privada da vida familiar. E o que faremos a seguir.

 
A ESFERA PÚBLICA LITERÁRIA COMO MODÉLO
DA ESFERA PÚBLICA POLÍTICA

Por ter sido criada a partir do modelo da esfera pública literária burguesa, a esfera pública política (doravante denominada simplesmente esfera pública) vai receber daquela as características necessárias para organizar a discussão permanente entre pessoas privadas. Tais características poderiam  ser resumidas em três grandes atitudes “revolucionárias" - (tendo-se em mente aqui o poder revolucionário das instituições burguesas em relação às estruturas sócio-culturais feudais, naturalmente). Estas seriam: a pressuposição de igualdade de status entre todos os homens, o que quer dizer que o poder e a respeitabilidade dos cargos públicos não vigoram e as relações de dependência econômica não devem ser eficazes; a problematização de temáticas e áreas do saber até então tidas como inquestionáveis (tais como a filosofia, a literatura e a arte que, agora, sendo produzidas para os leigos e o mercado, tornam-se acessíveis a todos, perdendo o seu dogmatismo e a sua aura); e o não-fechamento do público, enquanto capacidade de que todos devam poder participar, em princípio, da discussão. Passemos agora a descrever alguns elementos constitutivos desta esfera pública literária. O surgimento de um público enquanto tal se dá com a criação dos concertos pagos, uma vez que a música tivera anteriormente sempre uma função de representatividade pública (ligada aos serviços religiosos, às festividades sociais da corte, etc.), o que restringia imensamente as oportunidades dos burgueses (e camponeses, naturalmente) ouvirem música, a não ser nas igrejas ou na sociedade aristocrática. Iniciou-se, então, um processo de dessacralização e privatização dos colégios de música que, primeiramente, se emanciparam tanto da Igreja quanto da corte, para mais tarde se transformarem em sociedades públicas de concertos, onde se cobrava ingresso. Isto determinou a transformação da música em mercadoria e o aparecimento de um público desejoso de ouvir música pelo puro deleite que ela proporcionava aos seus apreciadores, e não mais por nenhuma função social específica que pudesse vir a desempenhar. O acesso a esse público era permitido a qualquer um (que tivesse propriedade e formação cultural para isso). A arte se torna, pois, objeto de “gosto", de livre escolha, e passa a se orientar pelo julgamento de leigos, sem competência especial. Esse mesmo processo ocorre no campo da literatura, do teatro e da pintura, quando as escolas se emancipam da dependência da corporação, da corte e da Igreja. E, em todos esses campos da arte, surge uma luta em torno do julgamento dos leigos, do público enquanto instância crítica, onde, até então, apenas um círculo restrito de entendidos tinha a competência do especialista, ligada a privilégios sociais. Nos salões e cafés, os burgueses se reuniam, então, para discutir. Dessa discussão surge a crítica de arte como conversação, que, posteriormente, dará lugar ao "árbitro das artes" - um porta-voz do público e, ao mesmo tempo, seu pedagogo. Surgem também os hebdomadários moralistas, onde aquela conversação é continuada através de outro meio de comunicação: os jornais. Aqui já aparece a intenção de auto-entendimento daqueles que se
sentiam conclamados à maioridade; o público se olha no espelho e, através do diálogo, dos argumentos que são usados para ser convencido, se sente instruído. O público (ou opinião pública) busca entendimento e esclarecimento mútuos no raciocínio de pessoas privadas, motivado por uma nova fonte de subjetividade: a família burguesa. Tal modelo familiar, que tinha o lar como esfera de privacidade, de intimidade, contrastava com a natureza flutuante das relações familiares aristocráticas, onde a genealogia familiar era mantida superficialmente apenas pelo nome. Sobre esta fonte de subjetividade, teremos agora que nos deter momentaneamente.

 
A FAMÍLIA BURGUESA COMO ESFERA DO PRIVADO
POR EXCELÊNCIA

Embora a família burguesa desempenhasse funções de reprodução material e simbólica da sociedade burguesa, a saber - a econômico-social, de garantir a continuidade pessoal do processo de acumulação de capital, ancorando-se no direito de livre herança da propriedade; e a ideológico-cultural, de assegurar a estreita observância das inevitáveis exigências sociais, introjetando a figura de autoridade no marido e pai e transformando a formação pessoal de seus membros em mero desenvolvimento de habilidades, subordinado ao trabalho socialmente necessário - nutria-se das idéias de liberdade, amor e formação. Os burgueses julgavam que o espaço da sua vida privada, familiar, era independente dos ditames colocados pelo setor privado do mercado e, como tal, reino da pura humanidade. Tal representação da família lhes conferiria uma autonomia em relação à coação social e às relações de poder econômico-políticas, pois acreditavam estar a instituição familiar baseadaapenas na vontade de indivíduos livres e na permanente comunhão amorosa dos cônjuges, cabendo-lhe a função de resguardar o livre desenvolvimento das faculdades das pessoas cultas. A família burguesa, portanto, como lócus do cultivo do livre-arbítrio, da comunhão de afeto e da formação pessoal, incluindo aí a formação da personalidade, permitia a formulação de um conceito novo de humanidade, que se pretendia inerente a todos os homens, definindo-os por estes traços como "humanos", sem necessidade de evasão para o transcendental, a fim de escapar da coação da ordem vigente. Habermas interpreta essa emancipação psicológica dos homens e mulheres como correspondente à emancipação política da classe burguesa: os donos de mercadorias se vêem como autônomos em relação às diretivas e controles estatais, decidindo livremente de acordo com as leis do mercado e a busca de rentabilidade. Ambas autonomias eram meramente ilusórias, contudo. De tudo isso, entretanto, o importante a reter é que, nas camadas mais amplas da burguesia, a esfera do público surge como ampliação e suplementação da esfera (privada) da intimidade familiar: a subjetividade oriunda da intimidade pequeno-familiar, que quer entender a si própria, dá origem a uma literatura e a um público leitor, de pessoas privadas, que quer discutir publicamente o que foi lido. Com a criação da imprensa e da crítica de arte profissional, surgem instituições que serão refuncionalizadas para a esfera pública política, onde a discussão não girará mais em torno de questões íntimas, subjetivas, mas de questões privadas, relativas às tarefas propriamente civis de regulamentação de trocas de mercadorias, e o diálogo estabelecer-se-á com base na discussão pública, na disputa dos proprietários privados com o poder público.

Madame Satã mostra força com a ajuda de show de interpretações

Madame Satã 

Ricardo Paiva

 
Madame Satã, filme dirigido por Karim Anouiz, quando estreiou em circuito nacional e pelos elogios colhidos junto a crítica, além da violência presente em sua temática, vem se juntar a Cidade de Deus como representantes de sucesso da safra recente do cinema nacional. A película é baseada na biografia do lendário Madame Satã, publicada pela coleção Encanto Radical e escrita por Rogério Durst. 

O diretor centrou a produção na década de 30, mais especificamente em 1932, o período mais conturbado da vida de João Francisco dos Santos, o Madame Satã. João, que nasceu em 1900 e morreu em 1976, foi um pernambucano de Glória do Goitá que migrou para o Rio de Janeiro. Mas, além de nordestino, era negro, homossexual, pobre e transformista. Tendo tais características, foi descriminado durante toda a sua vida e virou lenda na história cultural da Lapa e do Rio de Janeiro por não se curvar às agressões e humilhações que sofria pela sua condição. Alvo de preconceito, João sempre se envolvia em brigas e confusões e brigava freqüentemente com policiais.

FORÇA NA TRAGÉDIA - O filme é uma obra densa, carregada emocionalmente e muito intensa, assim como foi a vida do mítico Madame Satã. Karim optou por dedicar grande parte do filme ao ano de 1932, pois foi nele que o personagem principal, até então camareiro da atriz e cantora Vitória dos Santos, deu um novo rumo a sua vida. Nos bastidores do show de Vitória, João sonhava em ser ele a estrela do espetáculo e da noite carioca. Homem sensível, ia de reações mais ternas como as que oferecia a sua família até reações violentas nas ruas. Vivia com Laurita, prostituta que ele acolheu quando chegou na cidade, assumindo sua filha e convivendo com elas e Tabu, também homossexual e companheiro de profissão em programas. João não aceitava ofensas, pois tinha elevada auto-estima. Era um sonhador, amava a vida e por isso sentia grande revolta interior quando era negado a ele e as pessoas que amava, o direito de viver com dignidade. 

Amigo de Amador, dono do bar Danúbio Azul, convence o amigo a deixar apresentar seu show, onde cantava e dançava. Depois do Danúbio, vive um turbilhão de emoções e mudanças na vida. No bar, João brilha com suas performances. Na frente do bar, João mata. No universo marginal da noite, vai conhecer seu amor Renatinho, arrumaria outras várias brigas e desavenças. O lado lúdico e ameno da vida de João se realizava nessas noites, onde ele podia brilhar e alcançar o glamour que de dia lhe era negado pela sociedade que insistia em lhe descriminar e cruzar seu caminho.

UM FILME DE ATORES - Nessa jornada pela dignidade, a trama do personagem é defendida com maestria pelo jovem ator Lázaro Ramos. O ator, de personalidade discreta, parece que em cena incorpora algo e busca forças no além para encarnar o a figura lendária e trágica que foi Madame Satã. A força do filme reside principalmente nas interpretações tocantes de Marcélia Cartaxo como Laurita, Flávio Bauraqui como Tabu e especialmente do duelo de interpretação entre Lázaro e Emiliano Queiroz, o Amador. As poucas cenas de Lázaro com Emiliano são especialmente bonitas, pois marcam o que para João seria o início do sucesso e a esperança de uma vida feliz. No bar do amigo, após seus primeiros shows, ele sonhava alto e para um desatento, porém afetuoso amigo, falava parecendo estar em outro mundo. João queria e achava que poderia ser uma estrela da noite.

QUALIDADES TÉCNICAS – Madame Satã foi uma lenda justamente pelas atitudes explosivas, pela expansividade, alegria e pela intensidade com que vivia. Talvez, por isso, o filme é dono de uma estética toda especial, com fotografia perfeita e de cores fortes. Os movimentos de câmera parecem existir para definir os estados emocionais dos personagens. As cenas são guiadas pelas emoções e pelo forte componente emocional do enredo e trazem uma linguagem ousada e colorida, caracterizando bem o que era o mundo de João. A estética não poderia ser contida, nem o filme poderia ser sem vida. As sensações são preponderantes na estória e as críticas feitas ao estilo e a alusão à cosmética de Cidade de Deus talvez não caiba aqui.

O filme é bem resolvido na sua proposta: enfocar um curto, porém rico período de vida de uma instigante figura humana. Mesmo não tendo a perfeição técnica que foi apontada pelos críticos em Cidade de Deus, a obra é um notável retrato dos excluídos. Talvez o maior mérito do diretor resida aí. Na tentativa de diminuir o espectro de análise sobre um especial personagem e sua família, o filme revela com mais profundidade o mundo interior e a violência de um ser humano sensível e revoltado com sua condição.   

 

O Estado, por Frédéric Bastiat

O Estado
Por Frédéric Bastiat
Diário de Debates, número de 25 de setembro de 1948.
Frédéric Bastiat (1801-1850) Traducido al español por Alex Montero.
Traduzido ao português por Eduardo Maia (edmaia@hotmail.com)
Frédéric Bastiat (1801-1850) Traducido al español por http://www.blogger.com/app/Faré Rideau para Bastiat.org.

Eu queria que se criasse um prêmio, não de quinhentos francos, mas de um milhão, com coroa, cruz e fita para aquele que desse uma definição simples e inteligível desta palavra: o Estado.
Que imenso serviço prestaria à sociedade! O Estado! Que é? Onde está? O que faz? O que deveria fazer?
Tudo o que sabemos é que é um personagem misterioso, e seguramente o mais solicitado, o mais atormentado, o mais atarefado, o mais aconselhado, o mais acusado, o mais invocado e o mais provocado que há no mundo.
Porque, Senhor, não tive a honra de conhecer-lhe, mas aposto dez contra um que depois de seis meses o senhor engendra utopias, e se as imagina, aposto dez contra um como acaba encarregando o Estado para a realização.
E a senhora? Estou seguro de desejaria do fundo do seu coração curar todos os males da triste humanidade e que a senhora não se incomodaria de forma alguma se o Estado se prestasse somente a isso.
Mas, ai! O infeliz, como Fígaro, não sabe a quem ouvir ou para qual lado voltar-se. As cem mil bocas da imprensa e da tribuna gritam ao mesmo tempo:
"Organiza o trabalho dos trabalhadores.
Extirpa o egoísmo.
Reprime a insolência e a tirania do capital.
Faz experimentos sobre o esterco e sobre os ovos.
Enche o País de ferrovias.
Irriga a planícies.
Encha de árvores as montanhas.
Funda granjas modelos.
Funda oficinas harmoniosas.
Coloniza a Argélia.
Amamenta os bebês.
Instrua a juventude.
Assegura a velhice.
Envia aos campos os habitantes das vilas.
Pondera os benefícios de todas as indústrias.
Empresta dinheiro sem juros a quem deseje.
Libera Itália, Polônia e Hungria.
Eleva e aperfeiçoa o cavalo de sela.
Estimula a arte, torna-nos músicos e bailarinos.
Proíba o comércio e, ao mesmo tempo cria uma marinha mercante.
Descubra a verdade e atira em nossas cabeças uma faísca de razão. O Estado tem por missão esclarecer, desenvolver, engrandecer, fortalecer, espiritualizar e santificar a alma dos povos.”
- "Hei! Senhores, um pouco de paciência”, responde o Estado, com um ar lastimoso.
"Eu tentarei satisfazê-los, mas para isso me faltam alguns recursos. Venho preparando projetos concernentes a cinco ou seis impostos totalmente novos — os mais benignos do mundo. Os senhores terão o prazer de pagar-los”.
Mas, então, um grande grito se eleva: “Ah não, Ah não! Qual seria o mérito de fazer qualquer coisa com recursos! Não valeria a pena chamá-lo de Estado. Longe de nos preocuparmos com novos impostos, devemos pensar em retirar os antigos”.
“Suprima-se”:
O imposto do sal;
O imposto das bebidas;
O imposto das cartas;
A concessão;
As patentes;
As prestações.
Em meio a este tumulto e depois de o País haver mudado duas ou três vezes seu Estado por não haver satisfeito todas as demandas, quis deixar claro que elas eram contraditórias. A que me atrevi, Meu Deus! No pude guardar para mim esta desafortunada observação?
Eis-me aqui desacreditado ante todos para sempre... Acusado de ser um homem sem coração e sem entranhas, um filósofo seco, um individualista, um burguês e, para dizer tudo com uma só palavra, um economista da escola inglesa ou norte-americana.
Oh! Perdoem-me, escritores sublimes, que nada me detém, nem as mesmas contradições. Estou equivocado, sem dúvida, e me retrato de todo coração. Não desejo nada melhor, podem estar seguros, que os senhores hajam verdadeiramente descoberto, fora de nós, um ser bem-feitor e inesgotável, chamado Estado, que tem pão para todas as bocas, trabalho para todos os braços, capitais para todas as empresas, crédito para todos os projetos, cura para todas as chagas, alívio para todos os sofrimentos, conselhos para todos os perplexos, soluções para todas as dúvidas, verdades para todas as inteligências, distrações para todos os entediados, leite para a infância, vinho para a velhice, que provê a todas nossas necessidades, previne todos nossos desejos, satisfaz todas nossas curiosidades, conserta todos nossos erros, todas as nossas faltas e nos sugere a todos, com antecipação, prudência, de juízo,  de sagacidade, de experiência, de ordem, de economia, de temperamento e de atividade.
E por que não o desejaria? Deus me perdoe, quanto mais penso, mais me certifico de que o assunto é cômodo e estou impaciente para ter, eu também, ao meu alcance, esta fonte inesgotável de riquezas e de luzes, este remédio universal, este tesouro sem fundo, este conselheiro infalível que os senhores chamam Estado.
Também peço que me mostrem, que me definam, porque proponho a criação de um prêmio para o primeiro que descubra este fênix. Porque, em fim, acabo de me recordar que este descobrimento precioso ainda não foi realizado porque, até agora, a tudo isso que se apresenta sob o nome de Estado o povo acaba por derrocar em pouco tempo, precisamente porque no satisfaz as condições algo contraditórias do programa.
Falta dizê-lo? Temo que sejamos, a este respeito, enganados por uma das mais bizarras ilusões que se apoderaram alguma vez do ser humano.
O homem sente aversão à Pena, ao Sofrimento. E, porém, está condenado pela natureza ao Sofrimento da Privação se não aceita a Pena do Trabalho. Não tem, logo, mais que a eleição entre estes dois males.
Como fazer para evitar os dois? Até aqui não se encontrou e nem se encontrará outro meio: desfrutar do trabalho de outro; fazer de um modo que a Pena e a Satisfação não incumbam a cada um segundo a proporção natural, mas que toda a pena seja para uns e todas as satisfações para outros. Daí a escravidão, daí a espoliação, em qualquer forma que tome: guerras, imposturas, violências, restrições, fraudes, etc., abusos monstruosos, mas conseqüentes com o pensamento que lhes deu origem. Deve-se odiar e combater os opressores, não se pode dizer que sejam absurdos.
A escravidão está terminando, graças a Deus, e, por outro lado, esta disposição pela que estamos prontos a defender nosso bem faz que a Espoliação direta e cândida não seja fácil. Uma coisa então permanece. É esta infeliz inclinação primitiva que levam dentro de si todos os homens a dividir em duas partes a sorte complexa da vida, rechaçando a Pena sobre outros y guardando a Satisfação para si mesmos. Resta-nos ver sob qual forma nova se manifesta esta triste tendência.
O opressor não atua já diretamente com suas próprias forças sobre o oprimido. Não, nossa consciência se tornou demasiadamente meticulosa para isso. Há ainda tirano e vítima, mas entre eles se coloca um intermediário que é o Estado, quer dizer: a Lei mesma. O que é mais próprio para fazer calar nossos escrúpulos e, o que é talvez mais apreciado, para vencer as resistências? Logo, todos, com um título qualquer, sob um pretexto ou sob outro, dirigimo-nos ao Estado. Dizemos: “Não encontrei entre meus prazeres e meus trabalhos uma proporção que me satisfaça. Então queria, para estabelecer o equilíbrio desejado, tomar alguma parte do bem de outro. Mas isto é perigoso. Não poderia o Senhor facilitar a coisa? Não poderia me dar uma boa colocação? Ou talvez dificultar a indústria dos meus competidores? Ou até, quem sabe, emprestar-me capitais que o Senhor tenha tomado dos proprietários? Ou assegurar-me o bem-estar quando tenha cinqüenta anos? Por este meio, chegarei a minha meta com toda tranqüilidade de consciência, porque a lei mesma haverá atuado por mim, e terei todas as vantagens da espoliação sem enfrentar nem os riscos nem os ódios!”.
Como é certo, por uma parte, que dirigimos todos ao Estado alguma demanda semelhante e que, por outra parte, está comprovado que o Estado não pode prover a satisfação de uns sem aumentar o trabalho de outros, na espera de outra definição de Estado, creio-me autorizado a dar aqui a minha. Quem sabe se lograrei o prêmio? Aí está:
O Estado é a grande ficção através da qual todo o mundo se esforça para viver às custas de todo o mundo.
Porque, hoje como em outros tempos, cada um, um pouco mais, um pouco menos, gostaria de aproveitar-se do trabalho de outro. Este sentimento ninguém ousa exibir, dissimula-se a si mesmo; e então o que se faz? Imagina-se um intermediário, envia-se ao Estado, e cada classe por turno vem para dizer-lhe: "O Senhor, que pode tomar lealmente, honestamente, tome do público e compartiremos". Ai! O Estado acaba então por inclinar-se a seguir o diabólico conselho; porque está composto de ministros, de funcionários, de homens em fim, os quais, como todos os homens, levam no coração o desejo e tomam sempre com ardor a ocasião de ver engrandecer suas riquezas y sua influência. O Estado, pois, compreende de pressa a vantagem que pode tirar do papel que o público lhe confiou. Será o árbitro, o amo de todos os destinos: tomará muito, logo se deixará muito a si mesmo; multiplicará o número de seus agentes, ampliará o círculo de suas atribuições; terminará por adquirir proporções esmagadoras.
Mas o que falta demonstrar é a assombrosa cegueira do público perante tudo isso. Quando os soldados vitoriosos reduzem os vencidos à escravidão, foram uns bárbaros, mas não foram absurdos. Sua meta, como a nossa, foi viver às custas do outro; mas, como a nós, não lhes falhou. Que devemos pensar de um povo que não suspeita que a pilhagem recíproca não é menos pilhagem porque seja recíproca, que não é menos criminosa porque se executa legalmente e com ordem, que não se ajusta para nada ao bem-estar público, que o diminui pelo contrario tanto como custa este intermediário dispendioso que chamamos de Estado?
E colocamos a esta grande quimera, para edificação do povo, no frontispício da Constituição. Eis aqui as primeiras palavras do preâmbulo: "A França se constitui em República para chamar a todos os cidadãos a um grau sempre mais elevado de moralidade, de luz e de bem-estar”.
Assim, é a França ou a abstração quem chama os franceses ou as realidades à moral, ao bem-estar, etc. Deve ser recrudescida a atitude no sentido de manter esta bizarra ilusão que nos leva a todos a esperar outra energia que não a nossa? Deve-se dar a entender que há, ao lado e fora dos franceses um ser virtuoso, esclarecido, rico, que pode e deve verter sobre eles seus benefícios? Deve-se supor, e por certo gratuitamente, que existe entre a França e os franceses, entre a simples denominação abreviada, abstraída, de todas as individualidades e destas individualidades mesmas, relações de pai para filho, de tutor para pupilo, de professor a aluno? Sei bem que se diz às vezes metaforicamente: a pátria é uma mãe terna. Mas para pegar em flagrante delito de vacuidade a proposição constitucional, é suficiente mostrar que pode ser invertida não só diria que sem inconvenientes, mas, inclusive, com vantagem. A exatidão sofreria se o preâmbulo houvesse dito:
"Os franceses se constituíram em República para chamar a França a um grau sempre mais elevado de moralidade, de luz e de bem-estar”.?
Agora bem, qual é o valor de um axioma no qual o sujeito e o predicado podem trocar de lugar sem inconveniente? Todo mundo compreende quando se diz: a mãe amamentará o nenê. Mas seria ridículo dizer: o nenê amamentará a mãe.
Os estadunidenses tinham outra idéia das relações dos cidadãos com o Estado quando colocaram à cabeça de sua Constituição estas simples palavras:
"Nós, o povo dos Estados Unidos, para formar uma união mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranqüilidade interior, prover a defesa comum, acrescentar o bem-estar geral e assegurar os benefícios da liberdade a nós mesmos e à nossa posteridade, decretamos, etc.”.
Aqui o ponto de criação quimérica, ponto de abstração ao qual os cidadãos pedem tudo. Não esperam nada mais deles mesmos e de sua própria energia.
Sendo-me permitido criticar as primeiras palavras de nossa Constituição: ela não faz mais, como se poderia crer, que uma pura sutileza metafísica. Pretendo que esta personificação do Estado tenha sido no passado e será no porvir uma fonte fecunda de calamidades e de revoluções.
Eis aqui o Público de um lado, o Estado do outro, considerados como dois seres distintos, este tendo que entregar a aquele, aquele tendo direito a reclamar deste a multidão de felicidades humanas. Em que ponto se pode chegar?
Ao fato de que o Estado não é manco nem poderia ser. Tem duas mãos, uma para receber e outra para dar, dito de outro modo, a mão rude e a mão doce. A atividade da segunda está necessariamente subordinada à atividade da primeira.
A rigor, o Estado pode tomar e não dar. Isto se observa e se explica pela natureza porosa e absorvente de suas mãos, que retém sempre uma parte e algumas vezes a totalidade do que elas tocam. Mas o que não se viu jamais nem jamais se verá e, inclusive, não se pode conceber é que o Estado dê ao público mais do que lhe tomou. É, então, uma sandice que tomemos em relação a ele a humilde atitude de mendigos. É radicalmente impossível conferir uma vantagem particular a alguns indivíduos que constituem a comunidade sem infligir um dano superior à comunidade inteira.
Encontra-se, pois, colocado por nossas exigências, em um círculo vicioso manifesto.
Caso recuse o bem que se exige dele, é acusado de impotência, de má vontade, de incapacidade. Mas, se tenta realizar a vontade, reduz-se a golpear o povo com impostos redobrados, a fazer maior mal que bem, a atrair para si, por outro lado, a hostilidade geral.
Assim, no público há esperanças, no governo duas promessas: muitos benefícios e sem impostos. Esperanças e promessas que, sendo contraditórias, não se realizam jamais.
Não é ele a causa de todas as nossas revoluções? Porque entre o Estado, que esbanja promessas impossíveis, e o público, que concebe esperanças irrealizáveis, interpõem-se duas classes de homens: os ambiciosos e os utópicos. Seu papel está totalmente traçado pela situação. É suficiente a estes cortesãos de popularidade gritar às orelhas do povo: "O poder te engana; se nós estivéssemos no seu lugar, enxeríamos todos de benefícios e liberaríamos todos de impostos".
E o povo crê, e o povo espera, e o povo faz uma revolução.
Tão logo seus amigos se encarregam dos assuntos, são urgidos a executá-los. "Dêem-me logo trabalho, pão, seguros, crédito, instrução, colônias, diz o povo, e sem embargo, conforme suas promessas, liberem-me das garras do fisco".
O Estado novo não é melhor que o Estado antigo, pois, na realidade o impossível bem se pode prometer, mas não cumprir. Busca ganhar tempo, que lhe faz falta para amadurecer seus vastos projetos. Primeiramente, faz alguns tímidos ensaios; por um lado, estende um pouco a instrução primária; pelo outro, modifica um pouco o imposto das bebidas (1830). Mas a contradição está sempre no fulcro; caso queira ser filantropo, está forçado a permanecer fiscal; caso renuncie ao fisco, falta-lhe renunciar também à filantropia.
Estas duas promessas se impedem sempre e necessariamente uma à outra. Usar do crédito, quer dizer, devorar o provir, é de fato um meio atual de conciliar-los; ensaia-se fazer um pouco de bem no presente em troca de muito mal no porvir. Mas este proceder evoca o espectro da bancarrota a quem toma o crédito. Que fazer então? Então o Estado novo toma sua parte valentemente; reúne as forças para manter-se, sufoca a opinião, recorre ao arbitrário, ridiculariza suas antigas máximas, declara que não se pode administrar mais que com a condição de ser impopular; em uma palavra, proclama-se governamental.
E está aqui o que os outros buscadores de popularidade esperam. Eles exploram a mesma ilusão, passam pelo mesmo caminho, obtêm o mesmo êxito, e vão, apesar de tudo, cair no mesmo abismo. Assim chegamos a fevereiro. Nesta época, a ilusão que foi objeto deste artigo havia penetrado mais que nunca nas idéias do povo com as doutrinas socialistas. Mais que nunca, esperava-se que o Estado sob a forma republicana abrisse totalmente a grande fonte de benefícios e fechasse a de impostos. "Equivoquei-me muitas vezes, - diz o povo – mas agora vigiarei a mim mesmo para não errar uma vez mais”.
O Que pode fazer o governo provisional? Ai! O que se faz sempre em conjunturas parecidas: prometer e ganhar tempo. Não faltava mais, e para dar a suas promessas mais solenidade, fixa-as em seus decretos. "Aumento do bem-estar, diminuição do trabalho, seguridade, crédito, instrução gratuita, colônias agrícolas, arroteamento e, ao mesmo tempo, redução do imposto do sal, das bebidas, da carne — todo será concedido ao vir a Assembléia Nacional".
A Assembléia Nacional veio, e como não há como realizar duas contradições, sua tarefa, sua triste tarefa, limitou-se a retirar, o mais suavemente possível, um após outro, todos os decretos do governo provisional.
Sem embargo, para não voltar à decepção mais cruel, foi necessário transigir um pouco. Certos compromissos foram mantidos, outros receberam um muito limitado começo de execução. Também a administração atual se esforça em imaginar novos impostos.
Agora me transporto com o pensamento a alguns meses no futuro, e me pergunto, com tristeza na alma, o que virá quando os agentes da nova criação forem a nossas campinas para coletar os novos impostos sobre as sucessões, sobre as rendas, sobre os benefícios da exploração agrícola. Que os Céus desminta meus pressentimentos, mas vejo ali um papel a desempenhar pelos buscadores de popularidade.
Leiam o último Manifesto dos Montagnards, aquele que foi emitido a propósito da eleição presidencial. É um pouco extenso, mas, depois de tudo, resume-se em duas palavras: O Estado deve dar muito aos cidadãos e tomar pouco deles. É sempre a mesma tática ou, melhor dito, o mesmo erro.
"O estado deve gratuitamente instrução e educação para todos os cidadãos".
Deve: "Um ensino geral e profissional apropriado até onde seja possível às necessidades, às vocações e às capacidades de cada cidadão".
Deve: “Ensinar seus deveres para com Deus, para com os homens e em relação a si mesmo; desenvolver seus sentimentos, suas aptidões e suas faculdades. Dar-lhes, por fim, a ciência de seu trabalho, o entendimento de seus interesses e o conhecimento de seus direitos".
Deve: “Pôr ao alcance de todos as letras e as artes, o patrimônio do pensamento, os tesouros do espírito, todos os prazeres intelectuais que elevam e fortalecem a alma”.
Deve: “Reparar todo sinistro, incêndio, inundação, etc. (este et caetera diz mais do que diz) sofrido por um cidadão”.
Deve: “Intervir nas relações do capital com o trabalho e tornar-se o regulador do crédito”.
Deve: “À agricultura estímulos sérios y una proteção eficaz”.
Deve: “Voltar a comprar as ferrovias, os canais, as minas” e sem dúvida também administrá-las com essa capacidade industrial que lhe caracteriza.
Deve: "provocar as iniciativas generosas, estimulá-las e ajudá-las com todos os recursos capazes de fazê-las triunfar. Regulando o crédito, comandará amplamente as associações industriais e agrícolas, a fim de assegurar o êxito."
O Estado deve todo isso, sem descartar os serviços aos que deve fazer frente hoje; e, por exemplo, deverá ter sempre respeito aos estrangeiros uma atitude de ameaça, pois dizem os signatários do programa “ligado por esta solidariedade santa e pelas precedentes da França republicana, levamos nossos votos e nossas esperanças mais além das barreiras que o despotismo eleva entre as nações: o direito que queremos para nós, queremos para todos aqueles aos que oprime o jugo das tiranias; queremos que nossa gloriosa armada seja, se faz falta, a armada da liberdade”.
Verão que a mão doce do Estado, esta boa mão que dá e que reparte, estará muito ocupada baixo o governo de Montagnard. Os senhores acreditam talvez que o estará da mesma maneira a mão rude, esta mão que penetra e extrai de nossos bolsos?
Desenganem-se. Os buscadores de popularidade não saberão seu oficio se não têm a arte de mostrar a mão doce ocultando a mão rude.
Seu reino será seguramente o jubileu do contribuinte. “É o supérfluo, dizem, não o necessário o que o imposto deve atacar”.
Não será um bom tempo aquele em que, para enchermos-nos de benefícios, o fisco se contentará com minguar nosso supérfluo?
Isto não é tudo. Os Montagnards aspiram a que “o imposto perda seu caráter opressivo e não seja mais que um ato de fraternidade”.
Bondade dos céus! Eu sabia bem que está na moda meter a fraternidade em todas as partes, mas não suspeitava que fosse possível metê-la entre os itens da arrecadação fiscal.
Chegando aos detalhes, os signatários do programa dizem:
“Queremos a abolição imediata dos impostos que atingem os objetos de primeira necessidade, como o sal, as bebidas, etc.”.
“A reforma do imposto sobre os bens raízes, das concessões, das patentes”.
“A justiça gratuita, quer dizer, a simplificação de formas e a redução de gastos”.
Assim, imposto sobre bens raízes, concessões, patentes, timbre, sal, bebidas, correios, tudo iss desaparece. Estes senhores encontraram o segredo de dar uma atividade ardorosa à mão doce do Estado paralisando sua mão rude.
Bem, pergunto ao leitor imparcial, não é isso infantilidade, e mais ainda, infantilidade perigosa? Como o povo não fará revolução sobre revolução uma vez que decide a não se deter até que tenha realizado esta contradição: “Não dar nada ao Estado e receber muito!”.
Crêem que se os Montagnards chegassem ao poder não serão as vítimas dos meios que empregaram para tomá-lo?
Cidadãos, em todos os tempos dois sistemas políticos estiveram presentes e ambos podem se apoiar em boas razões. Para um, o Estado deve fazer muito, mas também deve tomar muito. Para outro, essa dupla função se deve fazer sentir pouco. Entre os dois sistemas é necessário optar. Mas em relação a um terceiro sistema, que participe dos outros dois e que consista em exigir do Estado sem dar nada, é quimérico, absurdo, pueril, contraditório, perigoso. Aqueles que o colocam exemplarmente para ter o prazer de acusar a todos os governantes de impotência, expondo-los assim a ataques, estes adulam aos senhores ou os enganam, ou ao menos se enganam a eles mesmos.
Enquanto a nós, pensamos que o Estado não é ou não deveria ser outra coisa que a força comum instituída não para ser entre todos os cidadãos um instrumento de opressão e de espoliação recíproca, mas, pelo contrário, para garantir a cada um o seu e fazer reinar a justiça e a seguridade.
Frédéric Bastiat (1801-1850)
Traducido al español por ">Alex Montero.
Traduzido ao português por Eduardo Maia (edmaia@hotlink.com.br).
Puesto al HTML por Faré Rideau para Bastiat.org.





A poesia de Leone sobre amizade e ambição

Era Uma Vez Na América 

Ricardo Paiva

Os críticos de cinema costumam conferir a aura de gênio ao diretor, ao metteur-em-scéne, aos poucos que conduzem, para além da mise-en-scéne, uma obra que crie mundos inesquecíveis nas mentes de seus públicos. E é interessante como realmente grandes filmes propiciam cenários e imagens únicas, de um mundo à parte, novo e original para os cinéfilos.Nessa relação entre originalidade e qualidade artística, cineastas como Stanley Kubrick, Federico Fellini, Sergei Eisenstein, Mário Peixoto e Glauber Rocha são alguns dos que foram artífices da criação de novas linguagens e estilos cinematográficos. 

Sergio Leone, esse italiano conhecido como diretor inventor do westerns spaghetti, produziu um cinema menos radical que alguns dos mestres das imagens, mas não deixou de legar um autoral trabalho poético para os amantes do cinema. Atuando como assistente de direção em Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sicca, co-dirigindo Os Últimos Dias de Pompéia, de Mario Bonardi e fazendo algumas cenas até de Ben Hur (incluída aí a co-direção na famosa cena da corrida de bigas), logo na década de 60 teve aberta as portas da Cinecittà, estúdio italiano que marcou época. Porém, apenas em 1983, ele realizaria o projeto de sua vida, um filme pensado durante vinte anos.

A película era uma superprodução ítalo-americana que conta a estória de cinco amigos poeticamente mafiosos na infância e violentamente criminosos na vida adulta. Noodles, Max, Cockeye, Patsy e Dominique, cercados por Deborah e seu irmão Fat Moe, urdem pequenos delitos no bairro onde moram, o Lower East Side, no Brooklyn, em Manhattan. Passam de bando para um organizado grupo criminoso quando ganham fama entre mafiosos locais ao terem a idéia de transportar cargas trazidas pelo mar usando sal dentro de esferas, que, viriam à tona dentro das caixas mantendo a integridade dos produtos. A forma como o diretor mostra esse fato e toda a trajetória dos infantes é entrecortada por flashbacks geniais, constantes retornos no tempo, que ao contrário de algumas críticas, não passam confusão para um espectador mais atento. 

O que existe é uma sucessiva manipulação do tempo narrativo que passa pelas décadas de 20, 30 e 60. Mas, ousadia não poderia ficar de fora de um projeto de vida de um obsessivo. Um apaixonado diretor que pretendeu abertamente - e em suas próprias palavras sobre o também clássico Era Uma Vez No Oeste - captar uma dança da morte, onde teríamos um filme onde sempre houvesse a impressão que nada acabaria bem e a morte parecesse um sonolento cão de guarda dos personagens. A mesma ambição narrativa de Era Uma Vez na América, então, tinha sido empregada no famoso western, considerado por muitos o melhor filme de Leone.

Uma violência delirante, os silêncios fascinantes e a delicada tessitura dramática pontuam a saga dos meninos do bairro judeu Lower East Side dos anos 20, numa espécie de visão complementar da que Coppola deu com O Poderoso Chefão. Com a fotografia majestosa de do amigo sempre parceiro Tonino Delli Colli e amparado na peça musical da dor que é a trilha que o amigo - desde tempos de colégio - Ennio Morricone compôs, Leone proporciona uma das mais belas viagens do cinema. Com ajudas fundamentais de geniais e subestimadas atuações de atores como Robert de Niro, Joe Pesci e James Woods e também as atuações espíritas de atores desconhecidos como Elizabeth McGovern, William Forsythe e Tuesday Weld, o diretor ainda consegue fazer milagres com o elenco infantil, que têm atuações profundas como as de Scott Tiler (jovem Noodles), Jennifer Connelly (jovem Deborah) e Rusty Jacobs (Max).

O cinema pode ser mais cerebral como em Orson Welles e Sergei Eisenstein, mas também poderia ser apenas mágico como nos filmes de Sergio Leone. Era Uma Vez na América mostra com perfeição algumas complexidades do homem, mostrando o valor da amizade, a poesia que existem em destinos humanos, mesmo sendo eles tão marcados por dor, traição e ambição.

Spencer é valente e ama o jornalismo e o cinema

Fernando Spencer

Ricardo Paiva

Como conclusão de curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, as estudantes Viviane Freitas e Mariana Tavares realizaram em 2001 o vídeo Valente é o Spencer, num título fruto de feliz idéia que remete ao nome Valente é o Galo, curta famoso do jornalista e cineasta Fernando Spencer feito em junho de 1974. No trabalho das alunas da Unicap, o próprio Spencer e várias pessoas a ele ligadas falam de sua trajetória como profissional e sua conhecida paixão pelo cinema e pelo jornalismo. 

Não poderia ser outro o mote de um vídeo sobre o querido jornalista pernambucano. Paixão pelo trabalho é algo característico da trajetória desse homem de 75 anos que, escrevendo sobre cinema, marcou época no jornalismo pernambucano. “Eu sempre gostei de cinema. Meu pai era um funcionário público que me levava desde os 8 anos para assistir filmes”.  Em sua casa, existem centenas de filmes, trechos de tantos outros, trilhas sonoras preferidas em fitas, discos de vinil e até disco 78 rotaçoes. “A pessoa quando é apaixonada por uma forma de arte acaba sendo sempre um colecionador. Eu desde sempre guardo filmes e mesmo discos, pois outra paixão minha é a música”.

SUPER 8 - O seu primeiro filme foi A Busca, ainda em 35 mm. Mas, no Super 8 é que foram várias as suas incursões, totalizando trinta e dois curtas acabados. O Super 8 foi uma forte demonstração de resistência cultural, pois sem apoio de estado, independentes, de forma  caseira, amadora e na base da raça, vários cineastas fizeram quase duzentas produções. De Spencer, se destacam entre vários outros feitos em 36 mm e 15 mm, os realizados em Super 8: Cinema Gória, Capiba, Ontem, Hoje e Sempre; Bajado, um Artista de Olinda - feito com Celso Marconi, que junto com o Grupo 8 e Spencer teve papel fundamental no cinema pernambucano - e Valente é o Galo.

O cineasta possui todos seus trabalhos em Super 8, alguns em vídeos, outro em rolos, outros em BetaCam. “Eu tinha muita vontade de lançar meus curtas ou apenas alguns deles em DVD, de repente com apoio da FUNARTE, FUNDAJ... Mas, é difícil ”. Falta acabar muita coisa e na mente dele, toda hora surgem idéias, parecendo que para ele é muito incomodo ficar parado. Essa mania de trabalhar foi que o fez ser um incansável na busca de seus objetivos, mesmo que fosse incompreendido por alguns. “Sobre o título que me deram de cineasta do filme inacabado, eu nunca tive raiva ou fiquei incomodado, pois era verdade mesmo. Cinema no Brasil sempre foi muito difícil”.

TIO JOCA - O jornalismo impresso é uma paixão tão forte quanto o cinema e também nesse ramo, o produtivo e versátil jornalista possui alguns projetos pelo acalentados ao longo dos anos. Entrou no Diário como revisor em 1956 e  paralelamente às críticas que fez no Diário de Pernambuco de 1958 até 1998, Fernando também exerceu sua faceta de escritor, poeta e cronista. Em pastas, estão separados seus contos, poesias e crônicas. Alguns deles já foram publicados, como foi no caso de Paisagem Urbana, inspirado pela  comoção pelo assassinato dos meninos da Candelária. Mostrou ainda o cd Viagem Azul, 8 ½ Poemas de Fernando Spencer, cd que traz oito poemas e cujo título homenageia filme do italiano Frederico Fellini, um de seus maiores ídolos junto com Charles Chaplin e John Ford.

Ao falar do trabalho em jornais, ainda mais emocionado fica quando lembra dos tempos do “Júnior”, caderno com 8 a 12 páginas, ilustrado pelo famoso artista plástico Cavani. O relato sobre a época de trabalho com os escritores infantis que produziam para o Diário emociona o editor “Tio Joca”, como era assinado o nome de Spencer no caderno. Idéia que foi inspirada no “Tio Juca”, também figura em suplemento do Diário de Pernambuco na década de 50. “Geneton Moraes Neto (hoje diretor de jornalismo do Fantástico da Rede Globo) começou comigo, aos 17 anos, levei texto dele para a redaçao, mostrei ao editor que se admirou depois que eu disse que quem escreveu tinha apenas 17 anos”.

Outras experiências saborosas dizem respeito aos pseudonimos que usou durante o exercício diário de escrever para jornal impresso. Desde adolescente, como adorava jornal, deixava seus próprios escritos nos jornais. “Eu escrevia algo, deixava na porta, eles publicavam”. “Durante um tempo usava o recurso de assinar com outro nome suas crônicas, era o Fernando Saldanha, que só foi descoberto pelo seu editor quando eu estava tomando café com Ronildo Maia Leite, quando ele me apresentou Antonio Camelo”. Outro pseudonimo era o de Sérgio Nona, mas esse existiu já na época em que trabalhava de fato como jornalista. Já estava contratado e possuía prestígio no Diário, quando “encarregado de escrever sobre música, adotei o Sérgio Nona, com o qual assinava matérias sobre mpb, lançamentos, depoimentos com artistas e novidades musicais”.

FAMÍLIA - O maior orgulho de Spencer são seus curtas-metragem, mas algo de muito especial para ele são seus filhos. De dois casamentos, tem quatro homens e duas mulheres. Ricardo é o mais velho do segundo casamento e quem é mais ligado ao trabalho do pai, pois se formou jornalista, tendo se envolvido com cinema e se especializado em efeitos especiais. Ele ri lembrando dos tempos que seu filho trabalhou com ele antes de viajar e do que aprontava. “Ele sempre mexia com essas coisas de efeitos especiais, brincava com os meninos aqui da rua, maquiava todo mundo. Chegou a levar gente para Agamenon Magalhães, as pessoas ficavam espantadas com os ferimentos que ele produzia, depois notavam que ninguém tinha sido atropelado, que era só o trabalho de maquiagem que ele fazia”.

De tantos projetos que sonha em realizar, entre cd’s de poesia, livros com contos e poemas, além de transferência do arquivo pessoal e de sua cinemateca para a FUNARTE do Rio de Janeiro, parece mais feliz quando fala de seu sonho de colocar sua coleção em forma de alguma cinemateca de alguma universidade pernambucana, “talvez, uma Universidade Federal de Pernambuco ou uma Universidade Católica de Pernambuco, que teriam muita estrutura e espaço para abrigar a inestimável coleção de filmes, fitas, cd’s, revistas, jornais, posters e artigos. E um desperdício essas universidades não terem uma cinemateca e eu aqui com esse arquivo bom”. FANTASIA - Um precioso projeto para o cineasta parece ser o livro em que pretendia reunir seus artigos selecionados das colunas do Diário de Pernambuco de 1958 até 1998. “E difícil mais ainda publicar livros hoje em dia. Eu tenho esse desejo de fazer ainda essa compilação, já esta tudo em pastas, falta quem ajude, tenho vários amigos, mas não me sinto bem pedindo”. O nome seria Passageiro da Fantasia, o que realmente resume bem sua vida. O valente Spencer apenas quis que todos entendessem e amassem o cinema. Tendo desempenhado papel fundamental na história do cinema pernambucano, ele próprio se encarrega de definir o objetivo que norteou sua vida: “fazer filme é que sempre me importou. Para mim, aprender cinema era a melhor coisa, passar minha mensagem e estórias para outras pessoas que também gostassem de cinema”

L´Infinito

L'INFINITO

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte
dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma, sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissima quiete
io nel pensier mi fingo,ove per poco
il cor non si spaura.E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando:e mi sovvien l'eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s'annega il pensier mio:
e il naufragar m'è dolce in questo mare.

A moral humana na Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica

Ricardo Paiva

"Que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância ? ",  pergunta Jorge de Lima em reflexão que está na abertura de Lavoura Arcaica . De forma brilhante se resume nela o conteúdo de uma novela que fala da incompatibilidade entre a liberdade e a tradição, a clandestinidade do personagem principal - e a nobreza da família, de uma pessoa prisioneira de um conflito cujo desfecho desde o início se anuncia trágico.

É a estória de André, personagem-narrador que vai se representar o avesso de uma tradicional família. Ele, que parte em sua busca e para longe da tradição de sua família, respondendo apenas a realidade obscura dos seus recônditos desejos, vivenciando vários segredos que existem nas relações humanas. O segredo que o protagonista carrega o faz experimentar uma vida que corre paralela a uma outra realidade oposta e inconciliável daquela das convenções sociais, as repressões e às hipocrisias da aristocracia.

André nutre uma paixão incestuosa por sua irmã Ana : "... Desde minha fuga, era calando minha revolta ( tinha contundência meu silêncio! Tinha textura a minha raiva ! ) ... ". Além do impasse que o conflito gerava, ele se revoltava com a educação repressora e o conservadorismo do seu pai e o silêncio submisso da sua mãe para o patriarca. Na sua fuga, nos relata suas transfigurações,tem espasmos, narra a dor e a revolta com a família que o oprimia : " ... não faz mal beber, eu beberei transfigurado, essa transfiguração que há muito devia ter-se dado em casa ..." .

A novela segue o fluxo de pensamento dos personagens, modelando uma narrativa que causou admiração e renovação únicas dentro da prosa brasileira. Segundo Alfredo Bosi, crítico literário e professor da USP, Lavoura foi "uma revelação que marca a história da nossa prosa narrativa".  De certa forma, o escritor arredio, criou uma figura de mito em torno de seu nome, mas a força maior da sua escrita genial aplaca seu distanciamento e sempre o escritor foi figura aclamada por uma quase unanimidade dos críticos.

O romance de Raduan nos leva junto com André por um caminho onde conheceremos a tragédia do homem. André parte para uma fuga que não lhe livrará do destino. Sob a égide do tempo, ele vai encontrar dor e descobrirá que somos reféns do nosso destino. Com maestria, Raduan nos mostra o quanto somos impotentes diante de nós mesmos. É paira sobre toda narrativa, a inexorável força da natureza incidindo em um ser humano e fazendo-o descobrir sua fragilidade. O destino e as conseqüências irremediáveis que surgem quando aflora um sentimento fora das convenções. 

Lavoura é ma obra que muda a vida de seus leitores, que dispensa meia verdades e que até na dor,consegue ser lúdica, pois ensina algo novo mas não tão palpável. Coisas da alma que não são pesadas nem guiadas pela ordem natural das coisas. ‘’ Eu tinha que gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai. Que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família. Que meus remédios jamais foram escritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina.’’ Assim como André fala quando se coloca à margem das normalidades e diz que ergue outro equilíbrio na vida, Raduan pavimenta uma linguagem e perpetua um estilo único. Cria fluxos poéticos dentro de uma nova prosa brasileira.